Um estudo da Associação Latino-Americana e do Caribe de Transporte Aéreo (Alta), divulgado em 2 de setembro de 2026, calcula que a aplicação da CBS e do IBS sobre o transporte aéreo elevaria em 13,25% o preço final das passagens internacionais de ida e volta vendidas no Brasil e em 16,1% o das tarifas domésticas. No cenário modelado pela entidade, o país deixaria de registrar cerca de 5 milhões de viagens internacionais e 20 milhões de viagens domésticas por ano.
De onde vem a conta
A mudança tem origem na Lei Complementar 214/2025, que regulamenta a reforma tributária e substitui tributos atuais pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Segundo a Alta, a carga tributária setorial efetiva considerada para as passagens domésticas sai de uma referência de 9% antes da reforma para a alíquota de referência de 26,5% de CBS e IBS. É essa diferença que aparece no preço final da tarifa.
O alerta não é isolado. Em agosto de 2026, a Iata já havia apontado riscos da reforma para o setor aéreo, e a Latam declarou publicamente que a mudança afeta o preço das passagens. Do outro lado, o Ministério da Fazenda publicou em abril de 2026 uma nota com esclarecimentos sobre a reforma tributária e o preço das passagens aéreas, sinalizando que discorda das projeções mais pessimistas. O debate segue aberto e vai ser decidido na regulamentação e no período de transição, que se estende até 2033.
Por que as aéreas dizem que não conseguem absorver
A Alta sustenta que as companhias brasileiras não têm folga para segurar o custo sem repassar. Entre 2015 e o terceiro trimestre de 2025, as empresas do setor acumularam R$ 55 bilhões em prejuízos líquidos, segundo a análise da entidade. Com margem apertada, o repasse ao consumidor vira o caminho mais provável.
O estudo descreve o efeito em cadeia: tarifa mais alta, menos passageiro, queda do fator de ocupação, ajuste de capacidade e desaceleração da expansão da malha aérea. O resultado seria menos conectividade. Vale o contraponto histórico apresentado no próprio levantamento: entre 2014 e 2024, o número de viagens aéreas por habitante no Brasil ficou praticamente estável, enquanto as rotas domésticas cresceram 129% e as internacionais, 133%. Ou seja, houve mais oferta de rota sem que o brasileiro médio passasse a voar mais.
O que isso significa para quem planeja viajar
Para o viajante, o número que importa é o 13,25% na passagem internacional de ida e volta comprada no Brasil. Em uma emissão de R$ 4.000 para a América do Sul, isso representa algo perto de R$ 530 a mais. Em um bilhete de R$ 8.000 para o Caribe ou para os Estados Unidos, passa de R$ 1.000. O impacto não é uniforme, porque depende da rota, da companhia e de como cada empresa distribui o repasse entre classes tarifárias, mas a direção é única.
Há um efeito indireto tão relevante quanto o preço. Se a demanda cair no ritmo projetado, uma queda de 17,8% no internacional segundo a Alta, as companhias cortam frequência antes de cortar destino. Menos frequência significa menos opção de horário, menos assento em promoção e mais dificuldade de remarcação quando algo dá errado. Quem viaja com criança, com conexão apertada ou em data fixa sente isso antes de sentir no bolso.
A entidade projeta ainda R$ 43,2 bilhões a menos no PIB de Viagens e Turismo em 2036 e cerca de 360 mil empregos ligados ao turismo a menos no mesmo horizonte, o equivalente a 24% do 1,51 milhão de vagas adicionais que o WTTC projeta para o setor no Brasil entre 2026 e 2036.
A leitura da LC Turismo
Operando destinos em sete países, a gente enxerga o seguinte: passagem aérea é uma parte da viagem, não a viagem inteira. Hospedagem, traslado, passeio e alimentação são contratados em moeda local, no destino, e não entram nessa conta tributária brasileira. Um aumento de 13,25% no bilhete não vira 13,25% de aumento no custo total do roteiro.
O que muda é a matemática da antecipação. Historicamente, comprar passagem com mais antecedência já era vantagem. Em cenário de transição tributária, com regras entrando em vigor por etapas até 2033, antecipar a emissão passa a ser proteção, não só economia. E vale reforçar o óbvio que muita gente ignora: destino de curta distância na América do Sul, como Chile, Argentina, Peru e Colômbia, absorve melhor esse tipo de choque do que destino de longo curso, porque a base tarifária é menor.
Nada disso está fechado. É um estudo de cenário, não uma tabela de preço. Mas quem tem viagem internacional no radar para 2027 tem um motivo a mais para tirar a decisão do papel agora.
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